sábado, maio 30, 2020

Outra vez Açor


Por onde começar?
Nos últimos tempos, escritas como estas ficaram encostadas, com muita pena minha. As voltas os relatos têm ficado só para mim e para quem me rodeia. Falta de tempo, sei lá.... falta de disponibilidade e por vezes até falta de pachorra ou mesmo desleixo. É pena, pois todos estes relatos na internet, servem acima de tudo para mim, para eu de vez em quando ler e recordar, daí que o principal prejudicado em eles não existirem sou mesmo eu.

Dois mil e vinte começou fraco, muito mau em vários sentidos. Com a pandemia do COVID-19, o confinamento, o cancelamento de tanta coisa, o défice de kms nesta altura do ano é bastante grande. Mas isto também aumenta a vontade de pedalar. Confesso que por vezes me "refugio" no asfalto para desenferrujar, mas isso só aumenta ainda mais a vontade de ir para o monte.

Assim de um momento para o outro, prometi a mim mesmo, que sábado ia "investir" no monte. Sexta-feira à noite, pensei na Cebola (Serra do Açor), mas com algum receio, pois "apear" para aqueles lados, não é nada boa ideia. Acima de tudo queria procurar a tranquilidade que a montanha sempre me trouxe. Alem da Estrela, se há locais que me dão isso, esses também estão no Açor.  

Assaltei o frigorífico, fiz a mochila, peguei na bicicleta e fui.....


Depois de três ou quatro quilómetros de alcatrão, no Alto da Portela entrei em terra. Começava a entrar no monte e a contemplar as vistas. Estes cenários que até vejo tantas vezes durante a semana, sabem sempre de forma diferente quando cheira um pouco a aventura e passeio. No entanto também me sentia um pouco ansioso e até receoso tal é a falta de rodagem nesta altura do ano.


Pouco depois atravessei o Paul e a sua bonita ribeira. Com um cenário bonito como este, mesmo que seja em alcatrão, entre o Paul e Casegas fiz sempre por asfalto. Ganhava assim um pouco mais de tempo para poder "desperdiçar" no final do dia. Mas não se pense que entre o Paul e Casegas a estrada é sempre assim direitinha....



Cheguei cedo a Casegas, no entanto a aldeia já estava acordada. O espelho de agua da ribeira, convidada a parar, saborear o momento e meter qualquer coisa à boca. Optei por fazer isso minutos mais tarde, já com uma vista panorâmica sobre Casegas.



Estava a meio da primeira trepadela do dia, pequena comparada com aquelas que o dia iria trazer, quando parei para comer e olhar à minha volta. Casegas já para trás e na minha direcção as imponentes encostas da Serra do Açor, de onde se vislumbra o picoto da Cebola, o objectivo principal do dia. 

A subida a este marco geodésico por aqui, leva-nos da cota dos 400 metros, à cota dos 1400 metros em cerca de oito quilómetros, sempre com umas vistas magnificas.



E assim foi. Depois de deixar Casegas, subida ao Talhador e descida para a Ribeira do Porsim, que agora encontrei com asfalto pelo meio do pinhal. Depois desta linha de agua começa a subida ao marco geodésico Cebola, ponto mais alto da Serra do Açor. 
Basicamente, esta subida obriga-nos a apreciar tudo à nossa volta. Vai-nos deixando subir com calma, tranquilamente e a cada paragem o olhar para trás, dá-nos a perceber a imponência destas paragens, o isolamento de tantas aldeias e sítios. 



Olhando para cima, encontramos a aldeia de Minas da Panasqueira. Por vezes conseguimos ouvir algo motorizado, talvez aqueles gigantes extractores de ar, ou algo do género. 


Cruzo a estrada que nos levaria a São Jorge da Beira, ou ao Sobral de São Miguel (outrora Sobral de Casegas), e continuo a subir, primeiro rumo ao Manhão, um marco geodésico que quase se pode dizer que está a "meia encosta".




Se tivesse feito esta volta umas semanas antes, encontraria de certeza tudo em tons de rosa, mas neste momento já é tudo mais verde e amarelo. Tudo muito florido e muito bonito.


Imagine-se então, silencio absoluto, interrompido por momentos com o som suaves brisas, grilos, cigarras, águias, corvos,....  Bem, já ouve uma altura que aqui vim, que este silencio foi interrompido por uma procissão de javalis mesmo à minha frente.... Mas agora, paisagens de cortar a respiração, cores lindas, céu azul.... Isto só faz bem! Acreditem!


Aos poucos os rochedos, que servem de parede à barragem de Santa Luzia, começam a aparecer. Para ver as Minas da Panasqueira, já é preciso olhar para baixo, mas ainda falta subir bastante para que esta subida termine.


Outro local que mais anseio alcançar numa investida para aqui é o tranquilo cruzamento de caminhos que tem à sua beira uma pequena ermida de homenagem a Santa Barbara. 


Aqui onde até já há rede móvel, falei para casa. Mandei beijinhos, tirei umas fotografias, ataquei o presunto e a marmelada que trazia na mochila e desfrutei do que via.


Voltei à subida. As cristas que noutros tempos se "penteavam" somente com mato, têm agora novos caminhos com altos postes metálicos apontados aos céus. Não gosto. Será um mal necessário, quero acreditar que sim.






A barragem de Santa Luzia, ficou destapada de vez. Estou mais alto que as eólicas.




Também aqui passa a nova GR22, a Grande Rota das Aldeias Históricas. Vale bem a pena esta visita. Neste local, temos das vistas mais bonitas e com mais alcance das redondezas. Daqui avistamos a Serra da Gardunha, a Serra da Estrela e o seu ponto mais alto, a barragem de Santa Luzia, o São Pedro do Açor e a capela da Nossa Srª das Necessidades no cimo do monte mais conhecido como Colcurinho. Também a Serra da Lousã se avista daqui, as antenas do Trevim são evidentes na paisagem.

Pela primeira vez encontrei gente aqui em cima. Um grupo de 4 amigos/familiares, malta nova que estava aqui em cima a apreciar as vistas. Tinham vindo de pick-up, não é a mesma coisa, mas deve ter valido a pena de certeza. Comentei isso mesmo com eles, que era a primeira vez que ali encontrava gente.




Deitando os olhos para Norte, encontramos outras duas emblemáticas elevações do Açor, o São Pedro do Açor e logo a seguir a Nossa Srª das Necessidades (Colcurinho).  
Há muito que tinha ficado seco. Sem água no cantil e na mochila que trazia às costas. Mas eu sabia onde iria voltar a encher, com agua gelada. Desci à Covanca...



Durante a descida, encontramos agora uns bancos para este jardim. Avista-se dali a Malhada Chã. A barragem do Alto Ceira é evidente neste vale, o berço do Rio Ceira é aqui entre estas duas elevações.



Da Cebola ao alcatrão chega-se rapidamente, parece perto. No sentido inverso não é tão perto assim...



Passei na Covanca e continuei a descer para o ponto que mais me interessava naquele momento, o de apanhar água.







Depois desta paragem estratégica, segui para a Malhada Chã, esperava-me aquele bonito zigue-zague desta encosta a sul do São Pedro do Açor.




O abandono de determinado património, continua visível aos olhos de quem passa. Para trás vamos deixando o berço do Ceira como eu gosto de chamar.




No São Pedro do Açor, as bonitas paisagens continuam. A Capela da Nossa Srª das Necessidades está ali bem perto, e a partir deste ponto não é dificil lá chegar.
Mas aqui o local convida a uma paragem mais demorada. Aproveitei para almoçar. 
O Piodão mal se vê, pois estamos mesmo por cima dele, conseguimos avistar a Pousada do Inatel e algumas casas, mas não aquelas que fazem a imagem de marca do Piodão. 
O dia quente e a humidade trouxe umas nuvens com um desenvolvimento vertical, daquelas que é para desconfiar. Por um lado deu jeito, pois nestas encostas despidas de arvoredo, as sombras das árvores são inexistentes. Valeram estas nuvens encobrirem por vezes o Sol para eu ganhar alguma sombra nos momentos mais difíceis. 




Tinha uma enorme vontade, daqui seguir para o Colcurinho e descer ao Piodão, como fiz há uns anos atrás. Mas este cenário tinha muitos "ses". O primeiro era mesmo a minha disponibilidade física. O dia estava a correr bem, mas a qualquer momento o homem da marreta poderia aparecer. Os outros "ses" viam-se bem no horizonte, em diversos locais já chovia. A ultima coisa que não queria encontrar a seguir ao homem da marreta, era mesmo a trovoada num local como este. Aconteceu há uns anos e não queria repetir a proeza/aflição.


Decidi então seguir caminho pela crista na direcção do Gondufo. À minha volta os cenários de trovoada eram bem evidentes. Será que ia ter sorte?



Ao passar no cruzamento por cima das Chãs de Égua, recordo que era por ali que subiria caso tivesse ido ao Colcurinho e ao Piodão. Esta bonita subida tem uns "Z"s lindíssimos, que durante a subida dá para apreciar na perfeição. Podem ver isso neste post de 2013.






O cruzamento do marco geodésico Gondufo, tem uma particularidade, encontram-se aqui três distritos: Coimbra, Guarda e Castelo Branco.
Fiz este pequeno desvio, subi lá acima e mal "estacionei" caiu à minha frente em cima das eólicas o primeiro relâmpago. Se andava a ouvir os trovões ao longe, agora ouvia-os cada vez mais perto. Dei logo meia volta e desci, só depois me lembrei..... nem foto, nem nada!?? Subi novamente para registar o momento. Daqui de cima conseguimos ver as Pedras Lavradas de uma perspectiva diferente. Ali, naquele col é a porta entre o Açor e  a Estrela.







Voltei à crista, ao caminho principal onde a tendência é descer. Foi a melhor opção, o não ter alargado a volta. Os trovões cantavam cada vez mais perto. Felizmente, agora era fácil perder altitude. Lá em baixo conseguia distinguir a aldeia de Gondufo e do outro lado o Sobral de São Miguel.







Mudo para o caminho da encosta que me leva à estrada do Sobral de São Miguel e sigo para as Pedras Lavradas. A estrada estava molhada. Pensei, safei-me!
Aqui já não ia inventar mais. Era sempre alcatrão até casa.
À volta o cenário era mais do mesmo, trovoada e descargas localizadas, normais de dias como este.


As fotos acabaram, mas a volta não...
Até Unhais da Serra rolei tranquilamente, notava-se a temperatura mais baixa, por já ter caído alguma chuva.
Ainda lá parei para dois dedos de conversa, mas não demorei mais do que 10 minutos. Por acaso, só por acaso reparei antes de entrar em Unhais que ali para os lados do alto da portela estaria a cair uma chuvada. Pensei, se a apanhar refugio-me na paragem do autocarro do Ourondinho. Pensei mal!!! A cerca de 2 Kms da paragem, a chuva nem ameaçou que vinha e o granizo muito menos. Em 30 segundos o tempo mudou da noite para o dia. Um vendaval terrível atirou todo o lixo para a estrada, ramos de eucaliptos, etc... A chuva veio de rajada, acompanhada de granizo de um calibre considerável. Só pensava na paragem de autocarro do Ourondinho, mas estava a ser dificil e arriscado este simples quilometro a descer, que normalmente se faz em 2  minutos. O granizo magoava e não era pouco. Por vezes entrava directo pelos orifícios do capacete. Tive medo que o calibre das bolas aumentasse de um momento para o outro e isto ficasse ainda mais perigoso. Na estrada, continuava a pedalar, mas mal conseguia olhar para a frente. Encostei uns minutos, à beira de umas árvores. Não é a melhor solução no meio de uma trovoada, mas eu só queria que abrandasse o granizo, pois já estava a ser insuportável tanta pedrada, nas pernas, braços, cabeça....
Assim que abrandou, meti-me à estrada ainda com chuva e com o granizo a enfraquecer, pois o vento também tinha diminuído. 
Cheguei ao Ourondinho e à tão desejada paragem de autocarro. Estava terminada a volta. Já tinha a minha dose e já estava de barriga cheia. A assistência em viagem veio até aqui e levou-me até casa ;)

Realizaria-se este fim de semana o Benfeita Mythic, que teria uma receita idêntica a esta, mas com mais uns "pozinhos" que tornariam o desafio mais aliciante. Não houve este ano, mas para o ano reservem o dia 29 de Maio. Revejam as fotografias para abrir o apetite ;)


10 comentários:

Marco Daniel Alves disse...

Fantástico Tiago!

Unknown disse...

Muito bom! Havemos de passar aí este mês (sem granizo ou trovoada, espero)

André Bento disse...

Muito bom, excelente aventura amigo 😜💪

José Carlos disse...

Grande Tiago Lages ! Tu és daqueles (poucos) que ainda faz isto por paixão !
Continua amigo e fica atento ... no final do mês vais ter visitas ! ;)
Grande abraço !

Paulo Coelho disse...

Estes relatos fantásticos fazem-nos dois tipos de sensações, ter estado lá contigo a desfrutar a aventura e ao mesmo tempo não precisar de sair de casa pela descrição tão pormenorizada que nos faz sentir que também estivemos lá. Estou com saudades de pedalar contigo. Até breve :-)

Unknown disse...

Muito bom . Grd abraço

Unknown disse...

Sérgio Monteiro

JP disse...

;) Um abraço

Unknown disse...

Excelente volta amigo !faz-me lembrar aquela vez que me "arrastaram" da Covilhã ali para a serra do açor !grande abraço

João L. disse...

Olá Tiago,

grande volta !
Andámos por lá no mesmo dia (presumo que a tua volta foi Sábado dia 30) mas, desta vez, como tinha feito já o Trevim e o Sto. António da Neve na serra da Lousã pela manhã, já não atrevi a fazer a subida do picoto da Cebola (eu gosto de lhe chamar o Adamastor do Açor). A tempestade de granizo apanhei-a no Domingo na casa do guarda, ao cimo da barragem de Sta. Luzia (em 5 minutos ficaram 5 cm de granizo no chão).
Já não é a primeira vez que através do blog concluo que pedalámos os dois a solo por aquelas serranias no mesmo dia e que quase nos podíamos ter cruzado.
Conheço bem a fonte de que falas (tem uma pequena represa) ao fundo da Covanca, junto ao jovem Ceira, antes de começar a subir para a Malhada Chã. Também já me safou algumas vezes.
A cumeada entre o São Pedro do Açor e o Gondufo, apesar de curta, é para mim das pedaladas mais deslumbrantes. O que não percebi foi como ligaste o Gondufo às Pedras Lavradas. Já o tentei fazer umas duas vezes mas voltei sempre para trás.
Abraço
João